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sábado, setembro 30, 2006

Pausa literária...


"Depressa! Tu ou ele têm de morrer antes que surja o primeiro raio de sol! A nossa velha avó está tão triste que o cabelo lhe caiu como caiu o nosso com as tesouras da bruxa. Mata o príncipe e volta para junto de nós! Depressa! Estás a ver aquela mancha avermelhada no céu? Daqui a uns minutos levanta-se o sol e tu desapareces.
Com um estranho e profundo suspiro afundaram-se nas ondas.
A sereiazinha afastou o cortinado púrpura da entrada da tenda onde o príncipe e a princesa dormiam; olhou para o céu, onde o avermelhado da madrugada começava a brilhar, olhou para a faca afiada e tornou a olhar para o príncipe. A faca tremia-lhe na mão - e acabou por atirá-la para o mar. As ondas ficaram vermelhas quando ela as atingiu, como se salpicos de sangue saltassem da água. Mais uma vez a sereiazinha olhou para o príncipe, com os olhos embaciados pela morte; depois, atirou-se para o mar, onde sentiu o corpo dissolver-se em espuma."

Hans C. Andersen, "A sereiazinha"

Conclusão a retirar da análise do conto: "felizes para sempre" só nos filmes da Disney :)

quarta-feira, setembro 27, 2006

Para ti... a água dos caminhos


É madrugada. A alma levanta-se. Separa-se do corpo. E parte. Sabe que tem que se despachar. Mistura-se pelos pinheiros. Torna-se bruma. Tem um objectivo. Quando acordares já terá voltado. Acordarás com os lábios secos. "De onde vens?" Aproximar-se-á. Toma. Para ti. Trago-te água dos caminhos.


(Photo by Luís Rodrigues)

O Desafio


Bem... o Pé de Salsa deixou-me a batata quente nas mãos :) Mas como não sou homem de virar costas a um desafio aqui vai:

5 características minhas:

- Sempre a sorrir (porque a vida é bela... mesmo quando nos magoa);
- Muito distraído (a típica pessoa que volta a casa 5 vezes para vir buscar as chaves, o telemóvel... que anda sempre com papéis a voar e à procura daquele documento fundamental);
- Péssimo sentido de orientação (saio de casa duas horas antes quando tenho que ir a um sítio novo porque sei que me vou perder);
- Festeiro (porque como a vida é bela temos que a celebrar);
- Introspectivo (porque... olhem, vão lendo os posts e logo vêem).

This is me!

terça-feira, setembro 26, 2006

Desta vez...

... o socorro veio da Casa de Maio! Obrigado Maria :)
Tive um problema com estas ondas que teimavam em não surgir nem murmurar. Felizmente os conselhos mais avisados de uma amiga de escrita "arranjaram" o blog.

Manuel: obrigado pelo alerta :)

Um abraço a todos

sábado, setembro 23, 2006

Fotos do passado II


Não consigo esquecer. Uma história digna daqueles fimes dos anos 50. A preto e branco. Era a preto e branco que eu trajava naquela noite. A primeira noite de gala do cruzeiro. Cansado dos apertos de mão, dos brindes e das apresentações tinha-me ido refugiar no bar. Estava sentado ao balcão, sem sequer me ter dado ao trabalho de vestir algo mais confortável. Bebia. Muito. Depois de várias vodkas, martinis e manhatan's entregava-me agora a um bloody mary. O fumo do cigarro falava-me das presenças do passado. Ausências do presente. Incertezas do futuro. E tu entraste. Reparei logo em ti. A música deixou de se fazer ouvir. O teu caminhar denunciava uma ligeira embriaguez. Sentaste-te. Dois bancos de distância entre nós. Os olhares cruzaram-se demasiadas vezes. Não era uma coincidência. Levantaste-te e vieste sentar-te a meu lado. Sempre a tropeçar. Rendi-me de imediato. O olhar verde. Meigo. Ingénuo e sincero. Conversámos sobre o teu reino e a minha república. A Europa da carne e da cerveja e a Europa do pão e do vinho. Sobre ti. Sobre mim. Sobre o mar do Norte que atravessávamos em direcção à Noruega. A foi a primeira noite. O deambular pelo convés sob o sol da meia-noite que não se põe na Escandinávia. Os impulsos do vento. O ruído das ondas que se atiram, loucas, contra o navio. E o beijo. Os beijos. A paixão que nascia no meio daquele mar violento sob um céu partilhado pela lua e pelo sol. Seguir-se-iam os passeios pelas ruas ensolaradas de Bergen, a Galeria Nacional de Oslo, a descoberta das cascatas de Geiranger. Os "Fjords". Os icebergs. E seguir-se-ia a chegada. A última noite. O leito de Desdémona nos camarins do teatro. A última vez que te vi representar. O último passeio pelo convés. O último chá às 5h da manhã. Acompanho-te ao piso da tua cabine. O último beijo. Não te quero largar. Não afastes o teu corpo do meu. O teu calor. Afastamo-nos. Os olhos brilham com uma emoção que só a custo consigo conter. "Don't do that", murmuras baixinho. Aproximo-me das escadas. Não evito olhar para trás. Tu também não evitaste. Um último abraço apertado. O apartar. Tem que ser. Avançamos. Eu para o meu futuro. E tu para o teu. Levo na mão o papel que só posso ler no dia seguinte. No dia seguinte quando todos se tiverem a despedir entre abraços e promessas de reencontro vou-me afastar. Entrar num restaurante vazio. Ninguém dará pela minha falta. Sentar-me-ei. Tirarei o papel dobrado das calças. A música ambiente do restaurante vai tocar baixinho. E eu vou ler. Uma lágrima vai arriscar. Descerá suavemente. "Então? O que é que estás aí a fazer?” Vou-me levantar a correr e meter o papel, de novo dobrado, no bolso das calças. Há um avião à espera. Tenho que o apanhar.

(Photo by Luís Rodrigues)

Fotos do passado



Silêncio. A lua entra pela janela e estende-se por cima da cama. Por cima do lençol que nos cobre os corpos. O meu. O teu. Observo a silhueta do teu corpo que se afirma por baixo do lençol. O corpo longe. Já não dormimos agarrados como dantes. Penso nos últimos dias. Vão mais longe que estes dias no Alentejo. Vão até Lisboa. Mas agora estamos no Alentejo. E nem este Alentejo que sempre foi tão meigo para mim me dá a paz de que preciso esta noite. A lua revela-te a meu lado nesta cama. Longe. Os dois. Um do outro. O sono já não é cumprido ao compasso dos beijos a meio da noite. Da entrega. Do toque. Do abraço apertado. Estamos longe. E não sou capaz de me aproximar. Sobressalto. De repente este luar tão revelador tornou-te evidente. E a mim. Não consigo. Não sou capaz de permanecer nesta cama deitado a teu lado. Perdoa-me. Não sou capaz. Não consigo evitar pensar. "O que é que eu faço aqui?" Uma sensação que não quero chamar de repulsa. Mas não tenho outro sinónimo para lhe atribuir. Olho uma última vez para o teu rosto. Agora tenho a certeza que não é a ti que eu quero. E esta sensação. Não suporto. Levanto-me. Não consigo partilhar o leito contigo. Perdoa-me. Mas não consigo. É que a lua hoje mostrou-me. Mostrou-te. O Alentejo sussurrou-me que não és tu que eu quero a meu lado. Não sei quem será. Apenas sei que não és tu. Vou até à divisão contígua ao quarto e aí me estendo. Deito-me. O isolamento invade-me. E eu enrolo-me em mim. O medo do que será impede que as lágrimas se atrevam a espreitar. Ainda não é hoje que te vou chorar. Entrego-me a um estado meio adormecido. E dou por ti. Sinto a tua presença. Estás frente a mim. Provavelmente olhas-me. Estás imóvel. Deixo-me ficar de olhos fechados. Voltas para a cama. E eu fico. Já não consigo voltar a adormecer. A inquietação. As dores nas costas (este colchão é bem pior que o teu). O frio. O receio de assumir definitivamente uma atitude de ruptura. Regresso ao quarto. Deito-me. O corpo imóvel. Estático. Mexes-te. Aproximas o corpo do meu. Como há muito não fazias. Beijas-me no rosto. Procuras a minha boca com a paixão do primeiro mês. E é apaixonadamente que me beijas. Procuras-me o sexo. Manifesto-me. Não. Não me apetece. Nesta noite não me entrego. Precisamos de falar. "Está bem. Mas é melhor falarmos amanhã". Ok. Mas amanhã de manhã falamos mesmo. E eu fico. Imóvel. Contigo a meu lado. Mas só. "Dorme". Não sou capaz. A luz inunda as minhas pupilas que olham o tecto. A madeira. A mesma que viu noites de entrega. De beleza. E que agora contempla a minha solidão. "Então pelo menos fecha os olhos. Sempre descansas. Vai tudo correr bem. Vais ver que vale a pena tentarmos." Está bem. Eu fecho-os. Nesta noite. Fecho-os na certeza de que o sol se pôs. Que a lua veio. E que me revelou. Que nos revelou. Fecho-os na certeza de que entre nós o sol já se pôs. E de que não vale a pena tentarmos.

(Photo by José Ribas)

quarta-feira, setembro 20, 2006

Caminhices

Caminho. O relógio diz-me que tenho que lá estar dentro de 10 minutos. Caminho. Cabeça baixa. Passo acelerado. A multidão. O centro de Lisboa. Caminho. Por entre os casacos. Os cheiros. Os cabelos soltos. O Verão entoa o derradeiro canto. Beija-nos de sol com as forças que ainda lhe restam. Doira os ombros e as costas que se atropelam, que se cruzam. Caminho e já nem sei para onde. Tanta gente. Tantos cabelos braços costas pernas pés... E casacos. Porque o Verão já está a deixar de ser. Como será o teu casaco? O relógio. A pressa. Os meus sapatos que tocam a carne da cidade. Enleio-me pela multidão. Os braços que se roçam. Ombros que se empurram. Caminho e levo os braços soltos. Balanço-os na esperança. Puxa-me pelo braço. Impede-me de caminhar. Por favor. Agarra-me o braço. Emerge com a tua mão do meio da multidão e segura-me. Segura-o. Puxa-me. Desloca-me a clavícula com o esforço, se quiseres. Deixa-me o braço dorido. Parte-o. Mas puxa-me. Impede-me. Já não quero caminhar.

domingo, setembro 17, 2006

Trujillo


Calor. Um sol abrasador. Resolvemos sair da auto-estrada antes de chegar a Madrid. Não há pressa. Temos tempo. O tempo que se estende à nossa frente é nosso. Nosso. E não há pressa. Aquela saída parecia tão boa como outra qualquer. No meio da planície espanhola. Da Espanha dos conquistadores. Dos que ansearam por uma vida nova depois da conquista às hostes muçulmanas. Dos que partiram em direcção ao Perú. Ao México. À Nova Espanha. Para trás ficaram as cabras. As serras. As casas de pedra. De perda. Esse passado torna-se o nosso presente. As pedras falam. O Sol envolve-nos. Entramos naquele páteo. Eu e tu. Sob o sol que teima em penetrar pelas parreiras que nos cobrem. O púcaro conta-nos dos lábios que lhe tocaram. Cansados. Apaixonados. Tristes. Os lábios. Os meus refrescam-se com a sangria fresca. Contam-lhe a história de uma viagem. Minha. Tua. Perdidos. Os dois. À procura. Lábios que se despedem. E que partem. À procura.


(Photo by Luís Rodrigues)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Confissões (revisitadas)

Publiquei este texto numa outra página de internet. Da minha vida. Hoje sinto vontade de o voltar a olhar. A sentir. A partilhar. Aqui o deixo.



"São oito da manhã. Mais uma vez acordo com a sensação de que o mundo é o meu lençol e que o seu peso não me deixa levantar. Depois de envergar o disfarce esperado saio para a rua. Sei que as asas que me levam acima deste mundo que considero pequeno, tão pequeno, demasiado pequeno, não estão lá e que esta corda frágil onde me tento equilibrar um dia me vai deixar cair. Desço a rua a correr como faço todos os dias e inundo-me de sol. Já tão abrasador a estas horas da manhã... Penetro na urbe dirigindo sobre o viaduto ao som dos gritos das gaivotas loucas de liberdade. O vento não pára. Levo o meu sorriso espalhado pelo rosto. O sorriso que me liga aos passantes. "Luís, nunca deixes que to roubem", não é assim? Passo a curva e dirijo-me ao Palácio da Justiça. Imóvel. Imenso. Indiferente à minha chegada, recebe-me frio e cinzento. Olho o autocarro de onde se lançam todos a correr para mais um dia. E eu lanço-me também... só assim serei capaz de voar."

27 de Julho de 2006

segunda-feira, setembro 11, 2006

Olho o passado

É segunda-feira. Setembro. Lisboa cobriu-se de um lenço de seda cinzenta através do qual o sol tenta tocar os telhados, os rostos. Parei o carro e caminho para o escritório. O Outono aproxima-se. E eu caminho. Uma nova estação. Uma nova vida. Será? No primeiro dia do Verão recebi uma mensagem que dizia qualquer coisa do género "Espero que este seja um Verão de sonhos realizados" (não me lembro das palavras exactas). Mensagens que se mandam de empreitada. Lembro-me de que ainda me dei ao trabalho de responder que não esperava pelo Verão para lutar pelos meus sonhos. Não foi uma estação de repouso. Foi de trabalho. Muito. Reconstrução. Auto-reconstrução. Colar o coração. Assentar alicerces. Aprender a ser eu. Conhecer-me. Acho que foi desse processo que pari este blog. Aproximo-me do escritório e a cidade permanece coberta de prata. Terei forças para uma nova estação? Não sei. É segunda-feira. Setembro. Não quero olhar o futuro. Encosto a cabeça para trás. Fecho os olhos. E escuto. O meu fado. "Lágrima". Escuto e não olho o futuro. Hoje apetece-me olhar o passado.

domingo, setembro 10, 2006

Embalado... no coliseu

Do silêncio jorrou um murmúrio baixinho. Quente. Acolhedor. A luz ténue que se vai impondo revela-a. Do vestido negro de onde espreitam duas flores vermelhas saiem dois braços. Brancos. Lívidos. Que nos embalam. E ela canta. Atravessou o mar. E conquistou-me. Tinha colocado a derradeira lápide a uma semana fatigante. Absorvente. Esperava-me um jantar com uns amigos. Um telefonema urgente. Problemas com uns contratos. Patrocínios. Cancelo a minha presença no jantar (um dia destes já não tenho quem me convide). Uma corrida. O trânsito de sexta-feira à noite em Lisboa. O parque completo. Mando o carro para cima de um passeio. Deixo-o lá. Espero que ainda lá esteja quando voltar. A surpresa. Um convite para o concerto da Mariza Monte. Olho para o ingresso. Aquele papel dar-me-ia acesso. À sua voz. A sua presença aquece. O canto encanta. Chora baixinho e intercala o choro com uns sambas que nos embriagam o corpo de vontade de dançar. Sozinha. Conquista-nos. Dança. Dançamos todos. Chora. Murmura um lamento. Murmuramos todos.

Meu Canário
Marisa Monte
Composição: Marisa Monte

Pela primeira vez, eu chorei

Porque fui desprezado pelo meu amor

O meu barraco agora ficou desarrumado

O meu canário já não canta, com certeza se desgostou

Piu-piu, piu-piu, piu-piu,

Canta meu canarinho, para amenizar minha dor

Piu-piu

Quando é noite de lua, eu saio pra rua para meditar

O meu pinho faz tudo pra ver meu canário cantar

No soluçar do vento

No sussurro das folhagens

No gemido dos coqueiros

Pede a ele pra criar coragem

Nem assim o meu canário canta

E da minha garganta, um triste gemido sai

Ui-ui, ai-aiUi-ui, ai-ai

Aprendi


Foi quando entrei para a faculdade. Estreou. E fez sucesso. Pelo menos no meu televisor e na minha rotina. Passou a orientar-se pela hora do programa. Ally McBeal. A série que retratava a vida de uma jovem advogada que vem para Boston trabalhar numa sociedade de advogados. Uma série pródiga em episódios cómicos. Uma advogada cheia de clientes que parecem ter saído da 5ª dimensão. Problemas cómicos. Problemas dramáticos. Problemas que tinha que resolver. Sempre com muita originalidade. Adoro rir. Porém não era esse o motivo da minha obsessão por este momento televisivo. Desde o primeiro episódio deu para perceber que estávamos perante
uma personagem lutadora. Solitária. Que partilha o mesmo sonho connosco. Ser feliz. Das alegações, ora cómicas, ora dramáticas, na sala de audiências aos passeios solitários à noite pelas ruas de Boston ia uma fracção de segundo. E eu pensava. Pensava que esta ficção tão viciante estava demasiado distante da realidade. Mas não deixava de me se sentir cativado por esta personagem tão frágil (no meu intímo pensava: "se o personagem principal fosse um homem com toda a certeza não transmitira esta ideia de fragilidade"). E agora vejo. Olho-me. A ficção fez-se realidade. A minha realidade. Repleta de casos irreais. Caricatos. Cómicos. Aprendi que a nossa vida pode ser, também ela, uma sitcom. Somos personagens e espectadores. Só não existe um guião. O episódio seguinte é sempre uma incógnita. Mais importante. Aprendi que se o personagem principal daquela série fosse homem... bem, também ele passearia sozinho à noite pelas ruas de Lisboa (perdão, de Boston). Aprendi. Afinal um homem também é frágil.

segunda-feira, setembro 04, 2006

(Não quero ouvir) o que o meu espelho me disse...



Senta-te. Olha-me nos olhos. Olha-te nos olhos. Sei o que os outros vêem quando te olham. E sei o que eu vejo. Essa gargalhada que faz levantar os pombos em revoada. O que esconde? És forte. Pareces ser. Quem te vê na sala de audiências comenta a tua agressividade, a forma combativa de defenderes o teu cliente. Vê um castelo. Eu também vejo um castelo. De areia. As tuas muralhas desfazem-se com o impacto das ondas. Dissolvem-se. Os outros não vêem. Mas eu vejo. O rosto sereno com que apoias o olhar coberto de lágrimas dos que te procuram. O que está preso. O que se quer divorciar. A que foi despedida. O conselho solicitado com urgência pelo colega aflito. Aquele copo com o amigo que foi deixado pela namorada. O que te leva a querer estar sempre lá? O desejo de ajudar? Não questiono. Mas complemento: o desejo de que ao verem-te a ajudar não percebam o teu grito de ajuda. És grande de dia. Tentas ser. Mas eles não vêem. Não sabem que acordas a meio da noite. Sozinho. E que sozinho choras baixinho. Sentado na cama. Porque te descobres pequeno. Porque precisas daquele abraço apertado que não tens coragem de pedir durante o dia. E ficas sentado. De noite. Sozinho. A chorar. Baixinho... baixinho...

domingo, setembro 03, 2006

Obrigado Ana

As minhas desculpas a todos: parece que, inadvertidamente, permiti que apenas pudessem comentar os posts os membros do blog. Felizmente uma blogonauta atenta alertou-me para o facto e o problema encontra-se já resolvido (obrigado Ana).

sexta-feira, setembro 01, 2006

Na esplanada do Teatro Taborda...


... houve vinho tinto e chocolates. Numa noite morna. Fim de Verão. Sobre as luzes de Lisboa. Foi na esplanada do Teatro Taborda. E foi bom.

O final de tarde


Fartei-me de reclamar. Se isto cabe na cabeça de alguém... Metermo-nos na A5 em plena hora de ponta, fazer kilómetros só para chegar àquela praia.
Perfeito. Falaste em dar uma volta pela praia. Uma esplanada. Não me falaste em enfiarmo-nos na areia. Com sapatos. Vou o caminho todo a reclamar. Ainda por cima está vento. Fico calçado e guardo uma tonelada de areia dentro dos sapatos ou descalço-os e caminho com os pés nus sobre a areia cheia de pedrinhas na descida para a praia? E este vento que me chicoteia o rosto com areia. Não trouxe toalha. Isto promete. Estou tão ocupado a dirigir impropérios contra a minha sina que nem olhei em frente. Levanto os olhos. Olho agora. E vejo. O sol que mergulha no mar neste final de tarde começa a dar uma tonalidade mais quente à areia. O azul marinho é invadido pelo nevoeiro que desce da serra. A praia respira essa invasão. Também eu sou invadido. Já não luto. Resistir? Não. Esqueço o vento. A areia nos sapatos. Quero lá saber. Agora só quero ficar comigo. Ficar contigo. Os dois. Ficar na praia. Tornarmo-nos praia que recebe o sol do final de tarde.

Air - Bach