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sexta-feira, abril 27, 2007

Nocturno


A noite não acaba. Oiço cada movimento no exterior. Um cão que se ajeita, aninhando-se nalgum beco, uma folha solta levada pela brisa nocturna. Oiço a lua quando toca a calçada e a veste de um ténue branco arrendado de nuvens. E a noite que não acaba. Vejo o dia, a semana, o ano, a vida que passou. Tudo se repete esta noite. Sinto os pêlos da barba rasgarem-me a carne, emergindo lentamente para a safra matinal. Numa manhã que teima em não chegar. Não há sonho que ponha termo à vigília e tudo é vazio nesta noite que não acaba. Nem o teu sorriso, as tuas palavras meigas. Saberás tu como são vãs? Nem elas me resgatam desta noite que teima em não acabar.
(Imagem: "A cigana adormecida", por Henry Rousseau)

segunda-feira, abril 23, 2007

Criança de mar


Fecho livro e espreguiço-me na areia. Chegou a hora. O sol beija-me a pele saudosa de verão e ela agadece adquirindo novas tonalidades. Levanto-me e escuto-as. Chamam por mim num dialecto de espuma. Estendem-se na areia molhada e convidam-me a entrar. Para trás ficam as pessoas, a cidade e o trabalho. Fica tudo o que foi até há um segundo atrás. À minha frente só azul. Caminho determinado. Ao primeiro contacto os músculos contraiem-se e a pele arrepia-se. Prefere a dormência do sol à agitação das ondas. Mas o seu apelo impõe-se. Como recusar o trono de senhor da imensidão atlântica? Num impulso de coragem mergulho de volta a casa. Cá em baixo corto a imensidão que me arrepia a alma. Sinto-a contra o rosto crespo da barba por fazer, nos ombros largos. Desliza-me pelos braços, pelo torço e pelas pernas, culminando em carícias na ponta dos pés. Outro impulso e o rosto volta a expôr-se à luz do domingo. Os cabelos liquefazem-se numa mancha negra que se derrama pela fronte. Nuca, pescoço. Sou criança e brinco nas ondas. Nem mãe nem pai para me chamarem para a toalha. Sou criança do mar. Criança no mar. Tinha saudades. Juro que tinha.
(fotografia de Rafael Almeida)

quinta-feira, abril 19, 2007

O sabor dos dias


Entramos na sala de iluminação ténue e procuramos uma mesa perto da janela. O bar está vazio. Vens passar as últimas horas do entardecer comigo. Pode ser que analisemos algum processo ou falemos apenas de nós. O empregado aproxima-se. Optas por um whisky com soda e eu fico-me por um martini. Rosso, pois claro. Falas-me do teu dia e dos processos recentes. Eu aceno com a cabeça e vou esboçando sorrisos de anuência ao que me contas. E estou tão distante. Queria mais um martini. E depois outro. Oiço a melodia que se espreguiça desde o piano do átrio do hotel até ao bar. É uma melodia suave. Como o sabor deste martini. Como os dias que passam por mim e que me relembram outros dias. Em que o martini tinha um sabor mais intenso.


(Imagem: "Young Man Drinking a Glass of Wine", Jan Van Bijlert)

quinta-feira, abril 12, 2007

Não havia como continuar a teu lado (post a convite da amiga Maria)

"Não havia como continuar a teu lado. Nunca cheguei a descobrir se, de facto, amei. Mas sabes? Se isso tiver acontecido terá sido contigo. Os teus olham choravam enfado e os teus lábios fugiam aos meus. Sem a coragem de lhes dizer que já não os queriam. Já não havia como continuar a teu lado. O teu sorriso alvo e o jeito cativante esconderam que eras fraco. Tão fraco. E no entanto se de facto amei, foi a ti. Mesmo quando já não havia como continuar a teu lado."

Entrou no carro e partiu. Era um automóvel antigo e de motor ruidoso. Tão ruidoso que ninguém escutou o coração dela a estalar.
(Pintura: "Uma espécie de Isadora Duncan", de Júlia Calçada)

terça-feira, abril 10, 2007

Algures (um fim?)


Não havia tempo a perder. Prosseguiu a sua demanda pela Rua Augusta, subiu ao elevador moldado em ferro florido e saiu no largo do carmo. Ao aproximar-se das ruínas do convento reparou num homem sentado ali perto. Era jovem e tinha a tez morena, com cabelos negro azeitona. Era um jovem diferente. Em vez de vestir as roupas que um jovem da sua idade normalmente vestiria envergava um hábito de grosseiro pano castanho. Por cima dos ombros tinha uma capa branca plena de luz e nos pés um par de sandálias gastas e rotas. O mais estranho elemento de todo o conjunto era aquilo que tinha nas mãos. Um sorriso. O sorriso almejado. Aproximou-se dele e reclamou o que era seu. "Sempre aqui esteve" respondeu. "Há espera que o viesses buscar. Toma. É teu. Devolvo-to com a força das pedras deste convento. As mesmas que assistiram a guerras e à fúria daquele terramoto apocalíptico. As mesmas que erguem orgulhosamente os seus arcos ao céu, mesmo que estes já não suportem um tecto. Para quê um tecto quando se pode suportar o céu? Usa o esse sorriso como pregadeira para segurar a tua capa. Não será uma capa de Carmelita como a que envergo. Será uma capa de sonhos feitos realidade. De dores feitas lições. De gestos feitos vida". Despediram-se num abraço apertado e ele partiu com o sorriso reencontrado. Destinado a tornar-se naquilo que sempre foi.

(Imagem: ruínas do Convento do Carmo)

quarta-feira, abril 04, 2007

Homenagem devida...

Escapou-se-nos o dia 2 sem que fosse feita uma homenagem merecida. O "murmúrio" apresenta aqui a sua contrição e solicita aos amigos uma passagem por http://oarautodaria.blogspot.com/2007/03/padre-max.html

terça-feira, abril 03, 2007

Algures II



Saiu e desceu a rua. Não voltes sem o sorriso, disseram-lhe. Calcorreou avenidas e ruas estreitas. Desceu escadas e subiu alamedas. Perto do Tejo perguntou às gaivotas pelo sorriso mas elas ignoraram-no em gritarias confusas. Apenas uma o escutou, mas sem lhe dar resposta. Estava consumida pelo desalento de não poder voltar a voar: era uma questão de adormecer e aguardar um beijo de morte dado por algum cão que por ali passasse. Pensou em levá-la consigo mas ela estava colada ao chão. Quem quer viver se já não pode voar? Saiu dali e prosseguiu na sua demanda. Perto do miradouro de Nossa Senhora do Monte perguntou a uma velha romeira se por acaso não tinha visto um sorriso solto por ali. Mas também ela era incapaz de o ajudar. A sua vida era agora um desfiar de rosários e novenas. Contemplava a cidade com uma concentração irrepreensível para poder recordar-se de todos os seus pormenores no dia em que o marido a viesse buscar para finalmente a levar consigo. Percebeu que ia ser difícil obter ajuda para reencontrar o seu sorriso e saiu dali. A cidade começava a vestir-se de noite.

(fotografia por Luís Rodrigues, Porto, 2006)

Air - Bach