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quinta-feira, outubro 26, 2006

Eu gostava de escrever



Eu gostava de escrever sobre esta sensação. Sobre os teus dedos que passam entre os meus cabelos. Que mergulham na minha nuca. Cabelos que se te oferecem. Gostava de escrever sobre a seara negra e macia que oscila ao ritmo do teu toque. Ei-los que tombam à passagem dos teus dedos. Ei-los que dançam envolvidos pelas tuas mãos. Gostava de escrever. De contar que os sentidos se deleitam e adormecem envolvidos pelo teu toque. Que os meus olhos se acolhem serenos e que nos lábios se espreguiça um sorriso. Gostava de descrever a forma como as tuas mãos macias descem e me tocam levemente o rosto. Muito levemente. Como se o toque da ponta dos teus dedos o pudesse machucar. Gostava de escrever sobre a pele que se arrepia enquanto recordo o olhar meigo que repousa no teu rosto. Quando os teus dedos passam entre os meus cabelos. Eu gostava de escrever. Mas não consigo.

(Imagem disponível em www.olhares.com)

segunda-feira, outubro 23, 2006

Mondo blu


Chego ao escritório e sento-me. Em cima da minha secretária azul repousam os dossiers azuis em que optei por trabalhar hoje. A chuva azul escorrega pelos vidros da janela azul enquanto o papel azul sai da impressora com o primeiro requerimento. Será que vai ser lido por um juiz azul? Sentado a olhar para o monitor azul lembro-me. Uma noite de sábado azul. O momento frágil das palavras que não param porque não conseguem parar. Envolvem-se. O momento frágil que se converte num beijo iluminado por fracções de luzes reflectidas numa bola de espelhos. Uma noite de sábado azul. Que se transformou numa tépida tarde de domingo. E permaneceu azul. O telefone azul toca. É um colega azul que quer marcar uma reunião. Pode ser na minha sala azul? Desligo o telefone. Esforço-me por trazer à memória a cor dos teus olhos. Não consigo. E continuo a escrever. No meu teclado azul.

(Imagem: "Mondo Blu" por Patrizia Franco, 2006)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Numa tarde de chuva (descendo a Rua Joaquim António de Aguiar)

Coloco a gabardine sobre os ombros e fecho a porta. Saio para a rua. Chuviscos. Mordiscam-me a pele e injectam-lhe felicidade. Passo a mão pela barba por fazer. Áspera. Desço a rua até ao carro. Ignorado pelos condutores enfileirados na estrada, desesperados por chegar a casa. Eu não vou para casa. Agora não. Atravesso as poças com o ímpeto de um veleiro. Daqui a uns 20 minutos já estarei a entrar no Monumental. Tu vais estar à espera. Um jantar rápido enquanto te entrego aqueles contratos que me pediste. Sou mais que teu advogado. Já sou teu irmão. E preocupo-me mesmo contigo. Tanto. Não vamos falar das preocupações jurídicas. Diz-me: estás feliz? Desço a rua envolvido por um calor morno que emana do corpo. É a amizade que se desprende e atravessa os poros. É bom preocuparmo-nos com alguém. Então? Sentes-te feliz ou não? Não respondes. Claro. Se ainda nem sequer entrei no carro para ir ter contigo. Ainda não jantámos. Não vimos aquele filme que me convenceste a ver. Mas vamos fazer isso tudo. Daqui a 20 minutos.

(Imagem: "Walking in the rain" por Bllie Mathis)

segunda-feira, outubro 16, 2006

Os anjos, o cigarro e o vazio


Ergo o corpo e sento-me na cama. Nu. Olho os meus pés. As mãos. As mesmas que te tocaram há instantes. Volto-me e observo o teu corpo estirado no leito. Nu. Exposto. O corpo que abracei. Que me envolveu. Tens os olhos fechados. Eu permaneço sentado. A olhar para ti. Os dois. Iluminados naquele quarto pelas luzes da cidade que teimam em entrar. Atravessam os estores pelas pequenas frestas. Deixam-nos os corpos malhados de pequenas manchas de luz. Olho-te sem ter mais nada para onde olhar. Sinto-te perto sem ter mais nada para sentir. Sei que sentes o mesmo. Que há instantes, quando me beijavas, sabias que a seguir às 21h seriam 22h. Mais tarde 23h. Assim. Naturalmente. Que a seguir aos beijos viria o sexo. E que a seguir ao sexo eu partiria. Assim. Naturalmente. Dois espíritos perdidos. Dois corpos que se buscam. Daqui a 5 minutos vais levantar-te. Passear o corpo nu até à janela. Dos teus lábios subirá um fio de fumo que se vai misturar com as estrelas. Achas que o fumo do teu cigarro lhes pode contar o vazio que sinto? Continuarás a fumar. A luz vermelha do cigarro há-de gritar a tua presença entre as luzinhas brancas das estrelas. Pode ser que chame a atenção de um anjo perdido. "... guarda a minha alma de noite e de dia". Foi assim que aprendi. Pode ser que ele venha. E a guarde deste vazio.

(Imagem: "Crying Man" por Mike Glier)

sexta-feira, outubro 13, 2006

Intimidade

"A noite é um poema que conheço de cor e vou cantá-lo só para ti."
Maria do Rosário Pedreira


(Fotografia por Luís Rodrigues)

terça-feira, outubro 10, 2006

Foi

Acabava de se soltar das linhas emaranhadas nas patas. Acabava de sarar as últimas feridas nas asas. Em frente ao mar ensaiava aquele que seria o seu primeiro vôo. O primeiro dos últimos meses. O sol prateava-lhe as penas. O vento lambia-lhas. À sua frente as ondas murmuravam palavras de coragem e expeliam o odor do seu sal fazendo-o esquecer o sal das lágrimas passadas. Estava temeroso. Sabia que tinha que o fazer. Mas o receio... E vieste tu. Sorriso alvo e cabelos negros. O teu toque nas suas asas. Macio. Para quê voar? Entregou-se nas tuas mãos. Onde o guardaste. Vinhas triste e querias o seu canto. Aquele que ele nunca havia cantado. Acomodado no teu íntimo. Aninhado no teu ser. Resolve cantá-lo. Ensaiou-o e ele escorreu-lhe da garganta naquela tarde de maresias. Um canto tão suave que o surpreendeu a si próprio. Perdera há muito a vontade de voar. Para quê? Se achava que era teu. Não percebeu que as tuas mãos se começavam a abrir. Apenas vivia na memória de como o havias encostado, pequenino, ao teu rosto para sentires o toque das suas penas. Para escutares o canto que anseavas ouvir. Mas tu abriste as mãos. Cada vez mais. Elevaste-as. Ele já não queria voar. Mas tu lançaste-o. E ele foi.

(Photo by Carlos Ferreira in www.olhares.com)

domingo, outubro 08, 2006

O que encontrei... na caixa com as tuas cartas


"Do you remember the part in "One Hundred Years of Solitude" where one of the female characters falls in love and everywhere she goes she is surrounded by a crowd of yellow butterflies? Sometimes it feels like that when I think of you I am protected by a host of fluttering, tender butterflies."



Envolvem-me.
O resfolegar das suas asas traz a brisa do passado.
O toque de asas de seda.
Que me roçam. E protegem.
Toque de lábios, pele e abraços.
O teu toque. Nas noites mágicas.
Envolvem-me nesta manhã entre as oliveiras
junto ao rio.
Eles olham.
Sozinho caminho e sorrio.
Olham-me.
Rodeado pelas tuas borboletas.
Amarelas.

sexta-feira, outubro 06, 2006

No banco de trás do táxi

Afundo-me neste assento. O banco de trás deste táxi imenso. E são 4h30 da manhã. O interior da viatura parece-me enorme. Encosto-me. Olho pela janela. A cidade envolta em luzes. Espreito-a por entre as gotas no vidro da janela. E espreito a noite que termina. Tinha dado indicações que não estaria no escritório na sexta-feira de manhã. Proporcionar-me-ia uma "meia ponte". O jantar seria no dia 5 de Outubro à noite. Íamos estar todos juntos outra vez. Dissertar sobre a existência castradora a que o Homem está sujeito. Banhar a conversa em rios de sangria, cerveja e todo o tipo de líquidos embriagantes. Dançar até cair. Acabar a noite a ver o nascer do sol no miradouro do Adamastor. Ou a petiscar todos juntos em casa de um estranho acabado de conhecer. Talvez acordar num quarto desconhecido. Sozinho. Ou acompanhado. Ia viver isso tudo de novo e a experiência não se compadecia com reuniões às 9h da manhã no dia seguinte. Cancelei-as. Afinal não estamos todos. Uma ausência motivada por uma estadia temporária no Porto para um curso de preparação para o acesso à magistratura. Outra sem um motivo. Outra que resulta do Atlântico que teima em separar os Açores do continente. Já não me indigna a existência castradora. É "conditio sine qua non" da vivência em sociedade. Já não bebemos o que quer que tenha álcool. Escolhemos um bom tinto. E a sangria. Essa ainda permanece. O Direito do Trabalho já não é a imagem romântica do advogado de mangas arregaçadas que caminha lado a lado com os trabalhadores em greve. É uma ferramenta técnica que permite calcular indemnizações e negociar algarismos. O tema hoje é a finitude do Homem e a sua busca pelo amor enquanto sentimento perene que contraria essa mesma finitude. Existirá? E a música. Conseguirá o Homem rasgar o númeno através do êxtase wagneriano? Saímos e vamos até um bar. Hoje não vamos entrar em todos os cantinhos do Bairro Alto. Um bar chega. Vamos sentar-nos e tentar não falar de trabalho. O álcool ingerido culmina num ligeiro atordoar. Já não se termina a noite em espasmos regurgitadores dignos de um ritual dionisíaco. Percebo pelo rumo da conversa que já não vamos dançar. Eu queria tanto. Fica para outro dia. Vemos que já não é igual. Não lhe quero chamar crescimento. Amadurecimento. Prefiro chamar-lhe tempo. Deixa marcas no corpo. E na psique. E eu, curiosamente, gosto. Não me choca. Não trouxe carro porque esta noite ia ser como as de há dois anos atrás em que tudo podia acontecer. Não sei se não aconteceu. O meu tudo já não passa pelo tudo de há dois anos. Despedimo-nos. Entro contigo dentro de um táxi que te deixará primeiro em casa. Combinamos uma ida ao CCB ver aquela exposição de fotografia. Não combinamos um novo jantar ou uma ida àquele novo bar. Saíste. E eu continuo. Sentado no assento deste táxi. A olhar lá para fora. Através das gotas no vidro da janela.

terça-feira, outubro 03, 2006

Pari-me... e chovia

A minha sombra oscila sob as luzes dos candeeiros. O corpo veste-se dos faróis dos carros. Das luzes das lojas. Dos hotéis. Cheira a alcatrão molhado. Chuviscos. O cheiro da chuva na pedra. Os carros que passam. Afasto-me. Já só se ouve o eco dos meus passos. A alameda do tribunal. E ninguém à volta. Ninguém. Só eu. E o cheiro da chuva que se deita no passeio. Que me seduz. Que se esfrega no meu rosto. Rameira. O cheiro fértil. Sou eu e a cidade. Sós. As luzes. Mais ninguém. O céu negro. E eu. Renovo-me na chuva. No meio da estrada deserta. Atiro a pasta. Abro os braços. E grito. Renovado. Grito a dor do passado. A plenitude do presente. A incerteza do futuro. Grito a paz que anseio. Liberto-me. Podia dizer que me liberto de ti. Do trabalho. Do cansaço. Não. Liberto-me de mim. E liberto de mim nasço. Grito. Dói. Mas liberto-me. Neste novo parto.

(Photo by Luís Rodrigues)

segunda-feira, outubro 02, 2006

Volver

Apesar do sol que me beija a face. Do Tejo que se espreguiça diante de mim. Da sombra das oliveiras. Da noite de cinema. Da outra noite de encontros. Reencontros. Apesar do recolhimento com o livro nas mãos. Do passeio na praia. Do café quente. Apesar da tua companhia terna. Apesar das ondas que me contam. Que me cantam. Apesar da paz. Da serenidade. Apesar de tudo é segunda-feira. E tenho que voltar.

Air - Bach