Cardiologias

Uma onda provocada,outra apetecida,o mar fazendo-lhe cócegas frescas. Nadou para longe da orla, sítio rugoso onde a água namora a areia. Braçando-se lateralmente,afastou-se. Num arrepente, seus cabelos pesam-lhe - correntes na alma apaixonadas pela gravidade. Vislumbra com o olhar a praia distanciando-se dela, uma corrida perigosa. Nada, cansada,nada,nada consegue agarrar, agarra-se consecutivamente a nada. E nada,nada,sentido a existência esvair-se,seus cabelos pesarem-lhe mais e mais.
As paredes arrefecem-se do sol que as lambeu durante todo o dia. Agora o vale vestiu-se de noite e o terraço enfeitou-se de estrelas. A vela acesa empenha todos os esforços: não quer a casa abraçada pelas trevas. Tu também te esforças para saber. "Porque é que não páras? Porque não te deitas?" Vejo a dúvida nos teus olhos e saio para o alpendre. Tu não percebes e ninguém antes de ti percebeu. Nem eu. Não consigo. Tenho que sair de nós para estar contigo. Caminho descalço sobre as lajes frias. Fecho a cancela e sigo em direcção ao monte. Sinto-me feliz, agora que embalo a noite escura e fria. Agora que a tenho nos meus braços. Ninguém antes de ti percebeu. É que eu não sei esse abraço permanente. Ninguém soube que me queria perder enlouquecido de saudade do que nunca tive e que essa é a saudade mais perigosa. Por isso continuo a caminhar. A casa é agora um pontinho onde a lua se derrama lá no fundo do vale. A erva transpira a chuva que não caiu e caminho sentindo o seu roçar nas minhas pernas. Diz-me que a ventania se aproxima prenha de carícias. Conta-me histórias de felicidade e pede-me que me deite sobre ela. A casa já não se vê e por isso deixou de existir. O universo é o homem e a erva que pisa. Ambos com saudades do que não houve. E envoltos um no outro adormecem. Silêncio. Sobre o homem e a erva onde agora se deita.
(fotografia de Filipa Scarpa)
(Pintura: "Flamenco dancer" por Fabian Perez)