ut amem

Num dia qualquer na puta desta cidade que não cessa de me corroer a pele
Escrevo-te para te gritar aquele "amo-te" que sufocaste há tantos anos atrás. Grito-to hoje não porque ainda te ame, mas porque é a lembrança do que senti que me mantém vivo. São os teus cabelos negros que me correm nas veias e o teu sorriso alvo morde-me a memória. As tuas mãos rasgam-me os olhos e os dedos vasculham-me as órbitas em busca de lágrimas. Não há nada de ti que eu conheça agora. Mas o que conheci então é o meu presente e desenha o caminho do meu futuro. Sonho-te todos os dias e esse sonho é o soro que me nutre o viver. E assim, dormente, sou.
Não voltes.
(imagem: "O Beijo", de Picasso)