seco

Dizias que quando te tocasse o cabelo haveria de sentir a espuma de cem ondas. Que nos corpos crepitariam sempre as chamas de todas as fogueiras que se acendem em Outubro para as queimadas. Que as noites seriam eternas e prenhes de estrelas e que os teus beijos seriam pêssegos maduros que colheria com a boca ao entardecer. Que o teu olhar seria devoto e o teu único medo o de me perder. Recordo-me de cada promessa enquanto te sinto lá em baixo, na cozinha, distante. Ausente. Quando descer e te acariciar sentirei apenas os teus cabelos. Não existirá a espuma nem as ondas. O eco do seu rebentar é tudo o que agora possuo. Olho pela janela do quarto e vejo o fumo de alguma queimada num quintal distante. Também eu ardo, é certo. Mas tu és eira de pedra húmida, sem lenha ou feno ou desejo de me abrasar o corpo. Não há estrelas, nem noites. Apenas manhãs rasgadas de nevoeiro. Os teus beijos são gotejar rotineiro cujo compasso exorciza devoções. Chamas-me para almoçar e eu estremeço. É a voz com que me prometeste tanto.
(imagem: "American Gothic", Grant Wood)