E assim anoiteci. Com a alma à flor da pele

Avanço com o carro pelo viaduto e à minha direita estende-se o rio. Cinzento de um Outono que se aproxima. Aperto a curva e mantenho firme o cigarro na ponta dos dedos, enquanto acelero. Quero chegar, parar o carro e caminhar pela rua abaixo. Os meus sapatos querem beijar a pedra da calçada molhada pelas primeiras chuvas e o corpo pede-me vento. Vou-me perder nesta cidade caótica e mestiça, borrada como se numa tela de Pollock. Afundar-se-me-á a alma no meio de tantos sonhos desfeitos e outros tantos realizados. De beijos, danças e conversas dos milhares que se perdem nas veias da polis. E quando já me tiver derretido na melancolia sórdida de Lisboa sentar-me-ei estático e inabalável a um qualquer balcão, onde numa noite como outras tantas, tentarei encontrar o complemento directo do meu predicado partir.
(imagem: "Nighthawks", Edward Hopper)