Chegará

Ardem-me no rosto as labaredas da lareira. Aquela em frente à qual as crianças se sentarão a desembrulhar presentes e a comer guloseimas. Onde costumavas deitar-te e encostar a cabeça no meu colo para que as minhas mãos substituissem o livro velho pela massa negra e suave dos teus cabelos. As crianças ainda não chegaram e tu já partiste. A lareira arde na mesma. Lá fora os homens continuam a ser demasiado corajosos para haver um cavalo que os derrube e as mulheres continuam a fustigar as oliveiras com vergastadas que as despem das azeitonas negras. Os carros continuam a partir para a cidade, de onde sempre regressam, e as serras continuam a sussurrar as histórias milenares dos que as atravessaram. Continua a haver uma Primavera a seguir a cada Inverno e um Verão antes de cada Outono. E eu continuo sentado à lareira, com as mãos prontas a largar o livro para as entregar aos teus cabelos. Porque ambos sabemos que o Natal chegará em breve.