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Quarta-feira, Novembro 18, 2009

And so came tenderness


Hoje sou uno com a chávena de chá quente que me deixa morno o sentir. Aqueço-me também com a manta. E contigo. Quando estamos assim não há mundo nem telefones, nem mensagens, nem computadores. Só eu. E tu. E um calor que nos funde o entendimento.


(fotografia: "Les amoureux", Robert Doisneau)

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

My misfit sunset


Entro no carro e rodo a chave da ignição, à beira de vomitar este grito surdo que me sufoca. Os homens também choram e isso já não me mete medo ou provoca pudor, mas não consigo ter para comigo próprio a obra de misericórdia de concessão de uma lágrima. Não as há. Todo eu sou um imenso nada. Os risos, as camisas engomadas ou os toques de cristal dos copos repletos de vinho são papel berrante que apenas embrulha o vazio que é este ser que me angustia. E já não te culpo, porque é até o tudo que foste se desfez em nada. Que, depois do amor e depois da mágoa e depois da força e depois da melancolia, foi tudo o que ficou. Dir-me-ás que não há uma relação de causalidade adequada, mas isso agora não importa porque nem toda a argumentação e construção de uma tese conseguiria preencher o vazio que são os meus dias. Nem este novo corpo que beijo e abraço e com me deito. Nem os nossos planos para o futuro ou o sol que, cheio de ternura, traça desenhos nas nuvens rosadas paridas pelo entardecer. Consumo-me, no meio de todo o nada, pelo desejo de um tudo. Concreto. Conduzo o carro para fora do parque. Montgomery e Marilyn riem-se, entre um cigarro partilhado. Gritam-me do passado que só matam o vazio aqueles que têm a ventura de desposar a morte.


(Fotografia: "John Huston, Marilyn Monroe, Montgomery Clift e Arthur Miller no cenário de "The Misfits", por Bruce Davidson, 1960)

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

O preâmbulo de um (outro) adeus



O nevoeiro, o teu corpo inerte, o eco estéril das notícias pela rádio, as portas deste carro. Tudo me aprisiona e sufoca. Amarras-me os braços com o torpor da tua apatia e eu já não os consigo estender para alcançar a constelação de sonhos que paira sobre mim enquanto dormes, distante do que quero e sou. E que é tão mais do que a carne que pretendes assegurada para, lentamente, morrer a teu lado. Desconheço-me na penumbra da tua indolência.


(fotgrafia: "No pulse", por Joana Linda)

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Uma sexta-feira e mil silêncios



Sentamo-nos na mesa decorada de silêncio. Aquele espaço entre a aspereza das palavras e o enlevo de uma reconciliação. Ao longe o rio corta a neblina com reflexos de prata e sol. Não sei escolher palavras nem interpretar os teus olhos. O que neles escondes. Sinto-me esmagado pelos dias e não sei para onde fugir ou sequer se a fuga é um caminho. Talvez expluda em mil estilhaços de luz na esperança de uma nova criação. Ou talvez fique por aqui, a observar esses teus olhos que não sei o que escondem. Feliz por ver neles o reflexo do rio.



(Imagem: "Inner silence", por George Khairallah)

Sábado, Outubro 10, 2009

"O amor à portuguesa é uma choradeira completa"*



Grito-te aqui pela ducentésima primeira vez. E continuarei a gritar. Nos dias em que o mar lambe a costa com toda a doçura ou noutros, quando as ondas devoram as rochas com a verocidade de quem ama e não é escutado. Nuns dias com sorrisos e noutros talvez com aquela água que esborrata no rosto a falta de firmeza dos varões. Porque o meu amor é temperado com o sal que delas fica. E aquecido no lume brando da tua ausência.

(imagem: "Amália", grafitti por Jeff Aerosol)


*Amália Rodrigues, no Coliseu dos Recreios, anunciando o fado "Lágrima"

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

A violent yet flammable world*



Há muito que este corpo caminha envolto em fiapos de solidão. E é sozinho que o mergulho na água gelada que jorra das veias pétreas que atravessam o Norte dos meus sentidos. Sozinho que vou emergindo, e sinto-me despertar com o corpo trespassado de frio e água. Sozinho que abro os olhos e vejo-te assim. Apenas tu. Diante de mim. Avançam os dias e os meses e a solidão desfaz-se com os ventos que sopram da Serra. Derrete-se com o calor do teu corpo, junto ao meu, quando te aperto nos meus braços. E embriagado por esta sensação de que te tenho e cuido, com o travo na boca ao sabor cálido do café que tomamos nas manhãs de chuva, abro os dedos. E sem dar conta deixo-a partir. A solidão fez-se música. E perdeu-se no céu entre os últimos acordes do passado.

(fotografia: "Sleeping couple", por Karin Rosenthal)



*apropriando-me do título de uma música de "Au revoir Simone"

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

3



Estou a cumprir o meu papel como um rapazinho aplicado, sabes? Tudo certo. Tudo tão certo. Só as noites custam a passar.



(Fotografia tirada de "A place in the sun": M. Clift e E. Taylor)


Air - Bach